Em meio a um final de semana movimentado na capital paulista, o uruguaio Jorge Drexler subiu ao palco do Espaço Unimed na noite deste sábado (23) para apresentar o segundo show no Brasil da turnê Taracá. Em uma apresentação marcada pela delicadeza, reflexão e forte presença de ritmos afro-uruguaios, o artista, acompanhado por sete músicos, conduziu o público por diferentes fases de sua discografia, sem deixar de destacar o universo sonoro do álbum que dá nome à turnê, lançado em março deste ano.
A abertura foi com “Toco Madera”, canção que também abre o disco. Em seguida, “¿Cómo se ama?”, “¿Hay alguien A.I.?” e o clássico “Transporte” mostraram um Drexler interessado em discutir o presente, misturando tecnologia, relações humanas e existencialismo, temas que atravessam o novo trabalho.
Antes de apresentar “Polvo de Estrellas”, Drexler interrompeu o fluxo do show para refletir o valor de “cantar uma música que é antiga e fala do valor da vida”. Ele completou: “no momento em que o petróleo sobe, o valor da vida desce”
A bateria de Eva Català Sánchez ganhou mais vida com a pulsante “3000 millones de latidos”. O palco ainda ganhou a presença do percussionista uruguaio Victor Aguirre, conhecido como Pikiki, responsável por liderar os tambores do candombe, gênero tradicional do Uruguai. Ele adentrou o palco durante um pot-pourri de três canções: “Bienvenida”, “Tamborero” e “Quimera”, nas quais Jorge relembrou suas raízes no gênero.
A romântica e intimista “Te Llevo Tatuada” trouxe um dos momentos mais delicados do show, dividida em dueto com a backing vocal Flor Gamba. Na versão original, quem o acompanha é a porto-riquenha Young Miko.
Enquanto cantava “Las Palabras”, Drexler desceu do palco e passou a se apresentar no meio do público, transformando o espetáculo em algo ainda mais íntimo. A proximidade continuou em “Guitarra y Vos”, entoada em coro pelos fãs, antes de “Al Otro Lado Del Río” emocionar a plateia. Eternizada no filme Diários de Motocicleta e vencedora do Oscar de Melhor Canção Original em 2005, a música foi interpretada à capella.
Em “La Edad Del Cielo”, Drexler relembrou a tradução gravada por Paulinho Moska, mesclando a letra de ambas as versões e abriu espaço para outro destaque da noite. A contrabaixista espanhola Alejandra López soltou a voz e roubou a cena em interpretações cheias de presença também em “La Edad Del Cielo”.
“Movimiento” retomou a energia após o mergulho emocional, trazendo Drexler de volta ao palco e preparando o terreno para “Cuando Cantaba Morente”. A faixa ganhou peso extra graças ao dueto com a backing vocal Miryam Latrece e à homenagem explícita à lenda do flamenco Enrique Morente, citado pelo uruguaio como uma de suas grandes influências.
Após “Universos Paralelos” e “Tocarte”, ele pôs-se a agradecer a brasileira Marisa Monte ao apresentar a work-song “Nuestro Trabajo / Los Puentes” por uma fala sobre a importância do trabalho artístico.
O candombe voltou a dominar a cena em “Tambor Chico”. Com a condução de Pikiki, o espetáculo reafirmou a força do novo trabalho. Na canção, o título do álbum é explicado pela onomatopeia deste que, junto com os tambores piano e repique, compõe a percursão do ritmo.
Antes de cantar “¿Qué Será Que Es?”, Drexler fez questão de contextualizar a faixa, uma versão em castelhano de “O que é, o que é?”, clássico de Gonzaguinha. O uruguaio enfatizou: “eu sei que ele foi um artista importante para uma época difícil no Brasil [Ditadura Militar] e quis trazer sua mensagem para ser ouvida em outras culturas”.
“Sea” manteve a atmosfera calorosa antes da virada definitiva do show. A partir de “Ante la Duda, Baila”, o Espaço Unimed liberou o público para assistir à apresentação em pé — e o efeito foi imediato. O ritmo do candombe desatou a fazer todos dançarem, especialmente em “Bailar en la Cueva”, que transformou a reta final em uma celebração coletiva. Ainda houve espaço para um gesto de carinho à cidade com “Sampa”, clássico de Caetano Veloso, que trouxe de volta o tom intimista da primeira parte do show.
A escolha para o final não poderia ser outra senão “Todo se Transforma”, seu maior sucesso. Depois de uma noite construída sobre encontros, ritmos ancestrais e reflexões sobre o presente, Drexler saiu do palco lembrando que tudo muda, inclusive a forma de se conectar através da música.
Setlist completa
1. Toco Madera
2. ¿Como se ama?
3. ¿Hay alguién aí?
4. Transporte
5. Polvo de Estrellas
6. 3000 milliones de latidos
7. Bienvenida/Tamborero/Quimera
8. Te llevo tatuada
9. Las Palabras
10. Guitarra y Vos
11. Al Otro Lado Del Río
12. La Edad Del Cielo
13. Soledad
14. Amar y Ser Amado
15. Movimiento
16. Morente
17. Universos Paralelos
18. Tocarte
19. Nuestro Trabajo / Los Puentes
20. Tambor Chico
21. ¿Qué Será Que Es?
22. Sea
23. Ante la Duda, Baila
24. Bailar en la Cueva
25. Sampa (Caetano Veloso)
26. Todo se Transforma


