Com Zeca Baleiro em cena, “Felicidade” transforma canção de Tom Zé em espetáculo teatral

Em cartaz de 7 de janeiro a 1º de fevereiro, o espetáculo Felicidade ocupa o Teatro Sérgio Cardoso com uma proposta híbrida que une teatro, música e linguagem de histórias em quadrinhos. Dirigida por Dani Angelotti e protagonizada por Martha Nowill, a montagem parte de uma dramaturgia inspirada na canção “Vai (Menina Amanhã de Manhã)”, de Tom Zé, e se constrói como um espetáculo de forte identidade visual e musical.

A narrativa acompanha a vida de uma jornalista e influenciadora digital bem-sucedida que, sem qualquer motivo aparente, acorda tomada por uma felicidade intensa e permanente. O que começa como um simples bom dia se transforma em uma mudança profunda de comportamento e percepção da realidade. Incapaz de se livrar desse estado de alegria constante, a personagem passa a lidar com as consequências dessa nova forma de existir, em um percurso que mistura humor, estranhamento e reflexão.

Zeca Baleiro

A trilha sonora e a presença musical são elementos centrais de Felicidade. O espetáculo conta com a participação em cena do cantor e compositor Zeca Baleiro, que também assina a direção musical da montagem. Sua atuação vai além da execução das canções: a música dialoga diretamente com a dramaturgia, funcionando como comentário emocional e narrativo da história.

Zeca Baleiro é reconhecido por uma carreira marcada pela diversidade estética e pela aproximação entre música popular, teatro e literatura. Ao longo de sua trajetória, o artista transitou por diferentes linguagens cênicas, compondo trilhas e participando de projetos que exploram o palco como espaço de experimentação. Em Felicidade, essa experiência se traduz em uma presença cênica que reforça o caráter performático do espetáculo.

Tom Zé

A obra de Tom Zé ocupa um lugar singular na música brasileira por sua combinação de experimentação sonora, humor crítico e reflexão sobre o cotidiano. Revelado nacionalmente no final dos anos 1960, Tom Zé integrou o movimento da Tropicália, ao lado de nomes como Caetano Veloso e Gilberto Gil, mas construiu uma trajetória própria, marcada pela recusa a fórmulas comerciais e pela constante reinvenção estética. Sua música dialoga com o samba, o rock, a música concreta e a vanguarda erudita, criando uma linguagem autoral difícil de enquadrar em rótulos tradicionais.

Ao longo da carreira, Tom Zé desenvolveu um método composicional baseado na observação do comportamento humano, das contradições sociais e dos mecanismos da vida urbana. Suas canções frequentemente exploram temas como trabalho, consumo, relações afetivas e o absurdo do cotidiano, utilizando estruturas musicais não convencionais, ruídos, objetos sonoros e arranjos minimalistas. Essa abordagem fez de sua obra um campo de investigação artística contínua, mais interessado em provocar reflexão do que em oferecer respostas fáceis.

A canção “Vai (Menina Amanhã de Manhã)”, que inspira a dramaturgia do espetáculo Felicidade, sintetiza bem esse universo criativo. Longe de uma ideia simplista de otimismo, a música aborda a felicidade como movimento, expectativa e transformação, com uma letra que sugere deslocamento e abertura ao desconhecido. A composição reforça uma característica recorrente na obra de Tom Zé: tratar sentimentos universais de forma ambígua, irônica e, muitas vezes, desconcertante.

Serviço

Felicidade
Teatro Sérgio Cardoso – Rua Rui Barbosa, 153
De 7 de janeiro a 1º de fevereiro
Quarta a sábado, às 20h | Sábado e domingo, às 17h
Ingressos: de R$ 25 a R$ 220

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