Alceu Valença leva a força e a folia de Pernambuco ao Parque Villa-Lobos

Duas semanas após a passagem pelo Rio de Janeiro, Alceu Valença se apresentou no Parque Villa-Lobos, zona oeste da capital paulista na quente noite deste sábado (28). Foi o segundo show da turnê “80 Girassóis”, que celebra a vida e carreira do pernambucano de São Bento do Una, que completa 8 décadas em julho deste ano.

As mais de duas horas de apresentação foram uma viagem por várias fases do repertório do cantor. Nela, Valença convidou o público a se imaginar em uma viagem por cidades como Ilha de Itamaracá, Recife e Olinda. O painel do palco estava decorado como um “meio-sol” decorado com estrelas e envolto em lâmpadas de led.

Os portões da praça de eventos Cândido Portinari se abriram por volta das 16h. Entretanto, a apresentação só começaria às 19h45, quase mesmo horário do show de despedida de Gilberto Gil no Allianz Parque. Para essa espera, além do som que rolava, foram disponibilizadas ativações bem solares com fortes referências a cultura pernambucana para se fotografar e opções de alimentação e bebidas. Não foi raro ver fãs caracterizados com acessórios de girassol e com a bandeira do estado natal do cantor.

Um grupo performático, mesclando a estética circense com o frevo e o maracatu, animou parte dessa recepção. Entre passos de dança e o som da sanfona, os seis performers entregaram um “esquenta” com clássicos como “Anunciação” e “Tropicana”, preparando o terreno para o show.

Raízes

Antes do pernambucano subir ao palco com a energia frenética de “Agalopado” (1977), a banda mostrou ao que veio e foram exibidos trechos de um depoimento de Décio e Adelma Valença, pais do cantor, sobre como ele largou as carreiras de advogado e jornalista para investir na carreira artística. Parte do documentário “Alceu – Na Embolada do Tempo” (2019), produção do Canal Curta escrita e dirigida por Paola Vieira, o vídeo é datado de 1985.

Nele, seu Décio revela: “eu nunca acreditei no sucesso da carreira artística de Alceu. Achava que ele devia terminar o curso de Direito. Realmente ele terminou, mas para nos satisfazer. E hoje estou convencido de quem estava certo era ele… Principalmente, a mãe dele que foi quem o incentivou. Deu um violão a ele, contra minha vontade, contra minha expectativa“. A seguir, dona Adelma contou sobre esse presente, contando que o filho aprendeu a tocar o instrumento de forma autodidata, comparando a sua imagem com instrumento sobre os ombros com a do músico Juca Chaves, que fez sucesso entre as décadas de 60 e 70.

O início do show foi marcado por músicas que falam sobre a vida no sertão de Pernambuco e a relação campo-cidade do cantor que foi criado na zona rural do interior do estado. A segunda faixa escolhida foi “Pagode Russo“, de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), que teria outras canções relembradas durante o show. Em seguida, a força do álbum “Cavalo de Pau” (1982) foi resgatada com a envolvente “Como Dois Animais“, seguida da faixa-título.

Nesta parte, Valença reforçou a participação de seus espectadores exclamando que aquele não seria apenas um show dele para a plateia, mas também do público para o palco. Quase todas as canções foram encoradas a plenos pulmões pela audiência.

Moda e identidade

Enquanto sua banda trazia “Estação da Luz” ao Villa-Lobos, Alceu entrou para a coxia para trocar sua jaqueta bege decorada com broches e medalhas por um figurino vermelho. As peças são assinadas pela estilista Isabela Capeto, que revela em um vídeo disponibilizado em suas redes sociais uma forte inspiração no movimento armorial, de Ariano Suassuna, mesclando tons terrosos e vivos com brasões e símbolos.

Ela conta que a iniciativa “fala dessa coisa da ‘não-cópia’, da brasilidade, da gente intensificar cada vez mais as nossas raízes, e essa coisa das raízes nordestinas, que fala muito do Alceu“, o que contribuiu muito para as criações.

Doçura e folia

Valença entoou “Girassol“, que dá título à turnê, e logo em seguida, os casais apaixonados da plateia foram embalados pela doçura de “Flor de Tangerina” e de mais uma canção do Rei do Baião, “Sabiá“, que teve como destaque solos memoráveis do guitarrista Zi Ferreira e do sanfoneiro André Julião entregaram solos memoráveis. De forma desajeitada, o pernambucano recitou os versos de “P da Paixão” enquanto trocava novamente de figurino, entregando uma perfomance bem viajada e carnavalesca de “Ciranda da Rosa Vermelha“.

Após apresentar “Pirata José“, o cantor vestiu uma longa capa vermelha e embalou a noite com o “Hino do Elefante de Olinda“, marchinha tradicional que exalta a histórica cidade declarada Patrimônio Histórico e Cultural da Humanidade pela UNESCO. Marcada por um solo de guitarra potente, a homenagem foi estendida ao músico Paulo Rafael (1955-2021), parceiro de longa data de Alceu e ex-integrante da banda Ave Sangria. O clima de folia seguiu com “Bicho Maluco Beleza“, que dá nome ao bloco de carnaval liderado por ele em São Paulo, anualmente no Parque Ibirapuera desde 2015, e na Rua da Aurora, centro de Recife, desde 2025.

Banda de pife elétrica

Sem capa, Valença parou para contar como um encontro com Gonzaga em um show em Juazeiro do Norte definiu que sua obra criou uma sonoridade nova denominada de “banda de pife elétrica”, com a combinação de guitarras com instrumentos de músicas tradicionais nordestinas, como sanfona, pandeiro e zabumba. Aproveitando a deixa, ele apresenta o conjunto que o acompanhou, que além dos músicos já citados, contou com o diretor musical Tovinho nos teclados, Cássio Cunha na bateria, Nando Barreto no baixo, Costinha nas flautas e saxofone, Lui Coimbra nas violas e violoncelo e Natalia Mitre na percussão. Durante a apresentação, foi tocado um trecho de “Asa Branca”, uma das obras-primas do lendário pernambucano de Exu.

A força do tempo e o coro arretado

Em determinado momento, Valença contou a experiência de autoexílio na França durante a Ditadura Militar, apresentando “Embolada do Tempo”, nascida da saudade do Brasil e de seus colegas músicos como Jackson do Pandeiro e Geraldo Azevedo. Ele segue apresentando “Espelho Cristalino” como uma homenagem a preocupação ecológica de seu pai com o futuro do planeta. “Ele dizia que se as coisas continuassem do jeito que estavam, o mundo ia virar o Deserto do Saara”, contou.

A energia não arrefeceu quando os primeiros acordes de “Coração Bobo” ecoaram. Alceu relembrou a origem da canção, apresentada originalmente no Festival 79 de Música Popular, da TV Tupi, do qual foi desclassificada. Com um ritmo frenético que remete aos repentes e à influência direta do paraibano Jackson do Pandeiro, a música, faixa-título de seu sétimo álbum (1980), fez o público saltar.

Em seguida, Alceu contou que compôs duas canções em São Paulo. Primeiro, “Cabelo no Pente”, uma ode à sua própria trajetória errante. Depois, entoou “Pelas Ruas Que Andei”, canção de saudade, feita para a capital pernambucana. Nesse momento, ele elogia o “coro arretado” da plateia.

Antes de cantar “Tesoura do Desejo”, do álbum “7 Desejos”, de 1992), o pernambucano compartilhou um “causo” de bastidor. A composição nasceu de um reencontro decepcionante com uma ex-namorada em Nova Iorque. Curiosamente, para evitar o ciúme de sua parceira na época do lançamento, Alceu trocou o nome do ponto de encontro original, o “Bar Melo”, pelo fictício “Bar Leblon”. Livre de amarras e com a cumplicidade da plateia, ele subverteu a própria letra, devolvendo o nome original ao estabelecimento em parte da canção. Aproveitando o momento introspectivo, ele parte para contar a inspiração na solidão dos astros e da noite e canta justamente “Solidão”.

O ápice visual da noite aconteceu com “Táxi Lunar”, clássico composto em parceria com Zé Ramalho e Geraldo Azevedo. Atendendo ao pedido de Alceu, o público transformou o parque em uma constelação particular, acendendo as lanternas dos celulares para iluminar a apresentação e o próprio coro interativo. Emendando uma brincadeira narrativa, o cantor disse que precisaria “pegar um táxi para o Recife para encontrar uma moça bonita na Praia de Boa Viagem”. Foi a deixa para o fenômeno “La Belle de Jour”. A canção foi gestada em seu período na França e dedicada à musa da Nouvelle Vague, Jacqueline Bisset, cuja semelhança com Catherine Deneuve o remeteu ao clássico filme de 1967 que dá título à faixa. A reta final foi marcada pela interatividade absoluta, com o hino “Anunciação” foi entoado a plenos pulmões, em um coro que parecia não querer acabar.

“Todo artista é mentiroso”

Após uma “despedida” estratégica, Alceu retornou ao palco ironizando o protocolo tradicional dos grandes shows. Após aguardar o público pedir bis, ele brincou com o “momento canônico” das apresentações e incentivou a plateia a entoar o tradicional grito de guerra: “Alceu, cadê você? Eu vim aqui só para te ver!”.

 

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A catarse final veio com a explosão de “Tropicana (Morena Tropicana)”, uma das mais aguardadas da noite. A música selou a noite com o calor característico da obra de Alceu, deixando no ar o aroma de manga rosa, melão maduro, sapoti e juá. Valença e sua banda não se contentaram em fazer do público seu coral particular, quase à Simonal, e foram aumentando o ritmo da canção em alguns tons durante a canção.

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