Dia do Teatro: FANTASMAGORIA IV, peça final do Ultralíricos, provoca sobre utilidade da arte

Minha confissão:

é a última,

estou velho e melhor,

estou triste e nunca fui tão feliz,

desisti dessa peça,

desisti de outra e de outra

só pra voltar a fazer essa peça,

é um inutensílio,

meus olhos estão cansados de tanta luz,

estou perdido para esse mundo,

eu quis trazer vocês até aqui.

Os versos transcritos acima são do diretor de teatro e cinema Felipe Hirsch. O texto consta logo no início do livrete entregue ao público que comparece ao Teatro Anchieta, no Sesc Consolação, em São Paulo, para assistir a “Agora tudo era tão velho – FANTASMAGORIA IV”.

A peça estreou com lotação máxima, há duas semanas, durante a 9ª Mostra Internacional de Teatro de São Paulo (MITsp) e será a última do Ultralíricos. Após 11 anos de estrada, o coletivo encerrará as atividades. Entretanto, Hirsch e o grupo de atores seguirão juntos em outros projetos.

O trabalho derradeiro, em cartaz até 14 de abril, é tudo e nada ao mesmo tempo. Pode ser um tudo sobre nada ou um nada sobre tudo. É a arte, em metalinguagem, gritando que não há porquês que expliquem sua criação, tampouco definições de finalidade. Do mesmo modo, poderia se dizer de cada ato da existência humana.

Fica mais claro pontuando um dos elementos fundadores desta peça: o inutensílio. A formulação do poeta paranaense Paulo Leminski (1944-1989) diz que “a burguesia criou um universo onde todo gesto tem que ser útil”. Ou seja, “o princípio da utilidade corrompe todos os setores da vida, nos fazendo crer que a própria vida tem que dar lucro”, segue.

Leminski lembra, por exemplo, que amor, amizade, orgasmo e outros prazeres e sentimentos “não precisam de justificação nem de justificativas”.O tratado leminskiano abre a peça e é onipresente.

Coisas de maluco?

Dentro da proposta, não há uma história, o cenário é praticamente nenhum e os jogos cênicos sequenciais não guardam qualquer conexão. A coincidência é a fantasmagoria, o nonsense, destacada sobretudo nos monólogos, os quais fizeram a plateia dar boas risadas em parte das 2h30 de espetáculo.

O ator Guilherme Weber é um dos destaques. Sempre ele, uma cadeira, o cenário escuro e o holofote em sua direção. No começo, emendou dezenas de perguntas, questionando a razão de fazemos tantos questionamentos.

Em outro momento, repetiu a mesma fala por diversas vezes, mudando só a informação do estágio em que se encontrava no caminho lento para “chegar a lugar nenhum”. Arrancou gargalhadas, mas também tirou gente das cadeiras, que aproveitavam para ir ao banheiro, percebendo que não perderiam nada com as repetições. Cansativo ou propositalmente incômodo? Parou, quando a plateia gritou: “chega” e arrematou brilhantemente.

Danilo Grangheia é outro a envolver o público. Um dos pontos altos é quando seu personagem se propõe a discursar longamente, como se contasse uma história, mas fazendo pequenas brincadeiras com as palavras. Poderia ser uma criança. “Longe” virava “monge”, “cerne”, “cisne”, “história”, “escória”, “ser humano”, “ser humami”…

A atriz Amanda Lyra também diverte. Seu papel é elencar curiosidades aleatórias, principalmente, do mundo do teatro, enquanto a personagem de Roberta Estrela D’Alva se esforça para elaborar um pensamento que “despensa” ou é dispensável. Georgette Fadel, Magali Biff e o sempre elegante e versátil Pascoal da Conceição completam o elenco.

Todos juntos

Todos surgem em cena juntos pelo menos duas vezes, a primeira das mais bizarras. Finalmente, um cenário: quarto com cama, janelas e mesa com bebidas. Os atores rolam pela cama, pelo chão, se enroscam, caem, se agitam. No fim, o cenário é retirado de forma intencionalmente desleixada, ficando sujeira pelo chão, como que se um pintor, ao escarrar em uma tela branca, gritasse: isso é arte! Num segundo momento, os atores refazem a mesma cena várias vezes com poucas e cômicas diferenças.

A peça, portanto, exige da plateia concentração, paciência e uma pitada de desprendimento. A compreensão, repisada de tantas maneiras, acaba sendo fácil. Apesar de algumas passagens cansativas, vale a imersão.

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