A adaptação das artes cênicas na pandemia de Covid-19

Neste sábado (27), é comemorado o Dia Mundial do Teatro e "reinvenção" segue por mais um ano sendo a palavra-chave utilizada para resumir a vida do profissional da área. Com a pandemia de Covid-19 e a paralisação das atividades, os profissionais da cultura e da arte seguem, mais uma vez, sem uma data de quando poderão retornar aos palcos e encontrar o público, buscando apoio na tecnologia para pensarem em diferentes formas de trabalho. 

“Estávamos em São Paulo, com o “Por que Não Vivemos?” ali no Cacilda Becker, com tudo montado e tivemos que simplesmente voltar para casa e deixar tudo lá, foi um impacto e um susto muito grande, porque simplesmente paramos uma temporada no meio”, conta Nadja Naira, iluminadora, atriz e diretora da Companhia Brasileira de Teatro

A artista diz que, além do que já estava em cartaz, estava sendo desenvolvido um novo processo de criação, o espetáculo “Sem Palavras”. Mesmo com o choque, em março de 2020, a Companhia reagiu rápido, segundo Nadja, ao manterem os encontros virtuais com a equipe. “Estávamos tentando entender quando tudo voltaria… mas, como nada voltou, acabamos levando a peça para o mundo virtual”, conta. No entanto, no online, algumas adaptações precisaram ser feitas, o que demandou trabalho da equipe. Mas, no final, o alcance foi de uma maior quantidade de pessoas. “Teve até mais [público]. Porque o acesso da internet é um pouco mais democrático, dinâmico”. 

Para Giovana Soar, diretora de produção e atriz na Companhia, o teatro é algo pensado para interagir com o público e sua presença. Nestes momentos, a adaptação se torna algo desafiador. “Nosso trabalho é centrado na comunicação direta com o público, no sentido performativo, do ‘aqui e agora’. Para a gente, é muito difícil essa adaptação para o mundo virtual”. 

Foi nesse período de reinvenção que surgiu a ideia de abrir novas perspectivas dentro da trajetória da Companhia, dando lugar ao “Escutas Coletivas”, que seriam trabalhos de áudio sem tratamentos visuais, com textos escritos na perspectiva sonora. “Os atores podiam gravar suas partes em casa e trabalharíamos sonoramente essas dramaturgias, criando uma nova experiência”, explica. Além disso, surgiram ideias de disponibilização de cursos e atividades formativas pela internet, uma maneira que a Companhia encontrou para continuar próximos do público.  “Isso foi uma grata surpresa para a gente e esse momento de continuar trocando com as pessoas. Foi tudo isso que nos mantiveram ativos e de pé durante o ano que passou”. 

A Companhia Brasileira de Teatro também fez uma ação em parceria com o Sesc Online, apresentando virtualmente duas peças: “Em Companhia”, com Renata Sorrah, e “Projeto B”, com Rodrigo Bolzan. Nelas, a dramaturgia foi adaptada de outros textos que já haviam montado com os atores previamente. Em ambas, a resposta do público foi ótima, segundo Nadja. Mas, mesmo assim, a vontade de uma apresentação ao vivo, perto do público, permanece. “[Essa troca com o público] é o que nos mantêm. É um lugar onde temos onde nos segurarmos criativamente”, diz Giovana. 

Com a paralisação das atividades culturais presenciais, a arte não deixa de se fazer presente, dando apoio e acolhendo a todos. Não estamos frequentando salas de cinema, apresentações musicais e teatrais, mas, o que dá suporte emocional durante esse período, continua sendo a arte. “A gente fica pensando se seria possível viver esse isolamento sem a arte… Sem todos os livros, filmes, sem todas as músicas que nos deram suporte no período”, diz Nadja. “A gente não consegue viver só da realidade. A nossa capacidade imaginativa e criativa é gigante. Então, a ficção, a arte, a subjetividade, faz parte de qualquer um. A gente só faz revelar algumas dessas histórias, ou no palco, ou no cinema, ou na literatura…”, opina Giovana. 

“O mundo virtual veio para ficar nas nossas vidas, nos processos criativos e também nos processos finais dos espetáculos. Mas, o nosso material é presencial. Nós fazemos teatro, e o teatro é ao vivo. Essa outra coisa que a gente tem feito, que não sabemos nem se dá para chamar de teatro… Somos do presencial, precisamos, inclusive, voltar urgentemente para o presencial”, conclui Nadja.

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