Setembro Amarelo: Consultas com psicólogos aumentam durante pandemia

Por: Larissa Martin

Desde o ano de 2014, a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM) organizam o Setembro Amarelo, época do ano em que circula nacionalmente a campanha de prevenção ao suicídio. De acordo com as organizações, são registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos no Brasil e mais de um milhão no mundo e, cerca de 96,8% dos casos estavam relacionados a transtornos mentais, principalmente entre jovens. 

Para a médica e psicoterapeuta Marília Toledo da Casa Moara, o Setembro Amarelo é uma campanha extremamente importante, por tratar sobre algo delicado e ainda visto como tabu pela sociedade. "Saber que isso [suicídios e transtornos mentais] acontece, falar sobre, ajuda quem está sofrendo a identificar contextos semelhantes e, quem sabe, evitar uma tragédia. Assim como informamos à pessoa que está sofrendo que existem alternativas e que ela não está sozinha", conta. 

De acordo com o Ministério da Saúde, alguns sintomas classificam a depressão, tais como: sensação de tristeza, autodesvalorização, cansaço excessivo e dores ou sintomas físicos como mal estar e sudorese. Mas, segundo a doutora, nem sempre uma pessoa deprimida vai manifestar a doença de forma clara. "É muito comum após um caso de suicídio ouvirmos as pessoas comentando que 'jamais imaginariam pois ele estava trabalhando, nunca faltava…' A apatia, que é um estado de insensibilidade, como se não houvesse sentimentos, é bem característica, inclusive nos estados depressivos graves", explica. Ou seja, nessa questão entra a importância de a família, amigos e pessoas próximas observarem com atenção o comportamento atípico de alguém que esteja dando sinais de um possível quadro de depressão e ansiedade. 

Pandemia e o Setembro Amarelo

Durante o período da pandemia do novo Coronavírus e diante do cenário global em que o ser-humano está vivendo atualmente, estudos preliminares mostram que a saúde mental das pessoas não está boa. De acordo com uma pesquisa da Associação Brasileira de Psiquiatria realizada no mês de junho, 47,9% dos médicos psiquiatras registraram aumento no número de consultas, mesmo com o isolamento social, realizando-as diretamente de suas casas. Além disso, 89,2% dos profissionais identificaram que os pacientes tiveram sintomas agravados no período de quarentena e, 70% recebem novos pacientes após o início da pandemia, por pessoas que dizem nunca terem apresentado sintomas psiquiátricos anteriormente. 

“A pandemia trouxe muitas mudanças drásticas, muitos viram suas empresas entrando em crise e passaram a conviver com a ameaça de desemprego ou de falência, assim como muitos de fato perderam o emprego ou tiveram sua renda diminuída, levando a grandes dificuldades. Tivemos ainda que nos adaptar a uma nova forma de trabalhar, ou pior, encarar que seria preciso enfrentar a ameaça do vírus e pegar o transporte público, continuar trabalhando lá fora. Muitos perderam familiares e passaram pelo luto de forma muito cruel, sem poder se despedir”, diz a psicoterapeuta. Contudo, em vista desse cenário atual de insegurança, é reforçada a necessidade de tratar sobre a campanha do Setembro Amarelo e a conscientização das pessoas a respeito do assunto. “Esse cenário causou muito estresse e gerou ansiedade e, em muitas pessoas, essa ansiedade pode evoluir para quadros depressivos. Já temos estudos, divulgados inclusive pela Organização das Nações Unidas (ONU) como alerta, que indicam um aumento descomunal de quadros ansiosos e depressivos”, explica. 

A psicóloga Marilene Kahdi, assim como a doutora Marília, diz a respeito das consequências da pandemia na vida atual das pessoas e acrescenta sobre os que já tinham algum quadro de transtorno mental, podendo acentuar durante o período: “Ela [pandemia] gera um impacto no estado psicológico e emocional das pessoas, desencadeando ansiedade, medo, estresse, pânico… Pessoas que já tinham um quadro, como um transtorno de ansiedade generalizada, transtorno bipolar, síndrome do pânico, ou algum tipo de fobia, podem ter os sintomas acentuados, inclusive entre os que tiveram a Covid-19”. 

Conceito Wellness e o papel da sociedade

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define “saúde” como um estado de bem-estar físico, mental e social completo e não apenas como um estado de ausência de doenças. “Baseado nisso, temos essa construção atual do conceito de ‘Wellness’ (que significa ‘bem estar’) como um processo ativo de tomada de consciência, mudanças e crescimento no sentido de buscar uma vida mais saudável e gratificante. Ele engloba pilares nos quais devemos trabalhar concomitantemente, que são o bem estar emocional, ambiental, financeiro, intelectual, ocupacional, físico, social e espiritual”. A doutora Marília Toledo trata também sobre onde entra a importância de praticar exercícios físicos e manter o corpo saudável durante um período de tensão emocional. “O exercício físico é um dos melhores ‘antidepressivos naturais’. A atividade física promove a liberação da endorfina, conhecida como ‘hormônio do prazer’, além de outras substâncias que geram a sensação de bem estar. Estudos recentes demonstraram que a atividade física estimula o crescimento de células numa região cerebral chamada hipocampo, que atua na regulação do humor, da aprendizagem, memória e na mediação da raiva e dos impulsos agressivos. Além disso, o evidente: manter o corpo saudável gera menos doenças e menos preocupações”, explica. 

Ficar atento aos sinais de um possível caso de depressão em alguém próximo a nós é importante e dever de todos. “Acolher o sofrimento é sem dúvida o principal. Tendemos a minimizar, sem más intenções evidentemente, pelo contrário, tentando ‘animar’, ‘dar esperança’ para a pessoa, mas a verdade é que, falas como ‘não se preocupe, está tudo bem’, ‘não fique assim’, ‘não fale isso’ desqualificam o sentimento da pessoa que sofre e, isso a leva a se ensimesmar ainda mais”. Caso alguém próximo procura para dizer que não está bem, o ideal é ser um bom ouvinte e perguntar à pessoa como pode ajudá-la. 

Existem, ainda, canais de ajuda que procuram dar auxílio emocional, como o Centro de Valorização da Vida. O objetivo do CVV é ajudar no combate ao suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo por telefone, email e chat 24 horas todos os dias. É possível entrar em contato com o programa pela central 188 ou, até mesmo via email, por meio do site.

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