Paul McCartney lança nesta sexta-feira (29) o seu mais novo álbum de estúdio. Chamado “The Boys of Dungeon Lane”, o trabalho é descrito como “uma coleção de raros e reveladores fragmentos de memórias nunca antes compartilhadas” sobre a história do artista, principalmente do início de sua vida em Liverpool.
“As músicas mostram Paul em um momento franco, vulnerável e profundamente reflexivo, escrevendo com abertura sobre sua infância na Liverpool do pós-guerra, a resiliência de seus pais e as primeiras aventuras ao lado de George Harrison e John Lennon, muito antes de o mundo conhecer a Beatlemania”, destacou nota, descrevendo o material como cheio de momentos “autobiográficos”.
Para celebrar a novidade, a equipe do cantor organizou festas oficiais de audição em todo o mundo. Em parceria com a Universal Music, o Brasil teve a honra de receber o evento nesta quinta-feira (28), em São Paulo, em um lugar para lá de simbólico: o Cavern Club, versão brasileira do lendário Cavern Club de Liverpool, que catapultou os Beatles para o estrelato, localizado no Shopping Vila Olímpia.
Muito bem escolhido, o local proporciona uma imersão na Inglaterra, tanto pelas referências ao país, com as bandeiras e cabines de telefone, por exemplo, quanto pelos vários itens ligados ao Fab Four espalhados pelo espaço. Entre eles: o baixo Hofner de Paul, ingressos de shows da banda, um postcard com reproduções de autógrafos, fotos, quadros, pôsteres, xícaras do Abbey Road Studios, um disco do “Great New Hits” de 1965, ternos típicos, quebra-cabeças antigos e até a planta do Cavern Club original.
Aliás, os fãs sorteados – mais de 50 – para o evento marcaram presença caracterizados. Era comum ver os admiradores trajados com camisetas e ecobags de Macca, principalmente da “Got Back Tour”, que passou pelo Brasil em 2023 e 2024. Teve até um mini fã com uma fantasia temática do “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club”.
Assim que chegaram, os presentes foram recepcionados com uma trilha dedicada, claro, aos Beatles e ao querido Macca, abrangendo sua carreira solo e os Wings. Músicas como “Something”, “Another Day”, ”Hello, Goodbye”, “Live and Let Die”, “Ticket to Ride”, “No More Lonely Nights”, “Don’t Let Me Down”, “She Loves You”, “Eight Days a Week”, “Ob-La-Di, Ob-La-Da”, “Back in the U.S.S.R”, “Helter Skelter”, “Hey Jude”, “My One and Only Love”, “Can’t Buy Me Love”, “I Want To Hold Your Hand”, “Pipes of Peace”, “Lucy In The Sky With Diamonds”, “All My Loving”, “A Hard’s Day Night”, “All You Need Is Love” e “Get Back” tocavam, enquanto os admiradores podiam comer e apreciar os objetos expostos.
Um palco montado com a arte do novo disco ao fundo esteve posicionado a frente das mesas. Então, um texto oficial, sobre a conexão do artista com o Brasil e o fato de atravessar gerações, foi lido, até que os fãs ganhassem um pôster e um cartão postal personalizados e tivessem a oportunidade de ouvir o novo disco em primeira mão, poucas horas antes do lançamento. Durante toda a sessão de audição, a emoção tomou conta do ambiente: era comum ver pessoas sorrindo, aplaudindo, dançando (principalmente durante o novo single “Come Inside”, que rendeu até palmas sincronizadas), cantando com as canções já conhecidas ou simplesmente absorvendo cada faixa com entusiasmo evidente.
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Ouvir “The Boys of Dungeon Lane” é quase como escutar as histórias antigas de um parente próximo. Ao longo do disco, Macca, de fato, transformou memórias pessoais em canções, conduzindo o ouvinte por diferentes capítulos de sua vida de maneira íntima e acolhedora.
Basicamente, o músico revisita em profundidade os primeiros anos de vida. Em “Salesman Saint”, reflete sobre a criação recebida dos pais e o impacto da Segunda Guerra Mundial na vida da família. Já “As You Lie There”, com uma intro falada, resgata a lembrança do primeiro amor, uma garota chamada Jasmine, por quem nutria uma paixão silenciosa. Por sua vez, em “Days We Left Behind”, que rendeu o título do projeto, o músico relembra a rua onde cresceu, enquanto “Home to Us” conecta suas origens às vivências compartilhadas com o baterista Ringo Starr, parceiro de Beatles, em um dueto emocionante. Já em “Down South”, McCartney detalha as divertidas viagens de carona ao lado do saudoso guitarrista George Harrison, em um tributo afetuoso ao amigo (citando até “Twist and Shout”) e, em “Mountain Top”, retoma sensações ligadas à juventude e à liberdade – arrancando gritos pelo final mais “acelerado” e surpreendente.
Mas o álbum não vive apenas do passado: McCartney ampliou o caráter autobiográfico do projeto e incorporou fases mais “recentes”. Em “Momma Gets By”, por exemplo, utiliza experiências pessoais aleatórias como ponto de partida para criar personagens fictícios, enquanto que “Never Know” e “First Star of the Night” traduzem atmosferas vividas em lugares como Costa Rica e Los Angeles e “Ripples in a Pond” aborda a paixão pela esposa Nancy, juntos desde 2007. Nem mesmo o período de isolamento ficou de fora: as recordações do lockdown em família aparecem refletidas em “Life Can Be Heard”. Há espaço até para uma redescoberta inesperada: “Lost Horizon”, música esquecida do início dos anos 2000, reencontrada pelo lendário engenheiro Eddie Klein.
No aspecto sonoro, o álbum mostra um artista que, mesmo após tantas décadas de carreira, ainda busca experimentar. Parte disso vem da colaboração inédita com Andrew Watt, produtor conhecido pelos trabalhos com Ozzy Osbourne, Elton John, Pearl Jam e Rolling Stones.
O desejo de “pensar fora da caixa” é explícito em “We Two”, gravada em uma máquina Studer de quatro canais, a mesma usada pelo Fab Four em gravações clássicas. Assim, a faixa utiliza técnicas analógicas de gravação e ganha destaque pela sonoridade da caixa da bateria e pelo encerramento em que é reproduzida ao contrário.
Outro detalhe importante é que Watt incentivou McCartney a tocar a maior parte dos instrumentos do disco, retomando o espírito do álbum “McCartney” (1970), estreia solo do músico, marcada justamente pela abordagem mais artesanal e intimista. “Saí da primeira sessão pensando: ‘Bom, eu gosto dele, mas ele é um pouco insistente. Mas ser insistente não é algo ruim em um produtor. É apenas entusiasmo de alguém que quer continuar fazendo esse disco. E isso é contagiante”, revelou o próprio à Mojo a respeito da parceria.
Todo esse conjunto faz de “The Boys of Dungeon Lane” um trabalho que, ao resgatar memórias, torna-se memorável. Com o projeto, McCartney abriu espaço para que o público compreenda quem ele é no campo pessoal: seus medos, afetos, inquietações, imaginações e as experiências que o moldaram antes da fama.
Ao mesmo tempo, o álbum reforça exatamente por que Macca se tornou um dos maiores compositores de sua geração e uma lenda da música. Suas canções emocionam, cativam e criam identificação não necessariamente pelos ricos detalhes específicos das histórias contadas, ambientadas muitas vezes em outro contexto histórico e em outro país, mas pelas melodias, instrumentação caprichada e, principalmente, pelos sentimentos universais que despertam: amor, saudade, amizade, pertencimento e passagem do tempo.
Também à revista Mojo, Macca explicou o que enxerga como mais importante do ponto de vista de um compositor: “escrever sobre o que é, o que foi ou o que poderia ser”. Sem dúvida, em “The Boys of Dungeon Lane”, o artista conseguiu isso com excelência.
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