Nesta quinta-feira (28), estreia nos cinemas brasileiros a mais nova aposta de terror da produtora independente A24, “Backrooms: Um Não-Lugar”, que marca a estreia diretorial do jovem Kane Parsons. O longa é protagonizado pela indicada ao Oscar Renate Reinsve (“Valor Sentimental”), Chiwetel Ejiofor (“12 Anos de Escravidão”) e Lukita Maxwell (“Falando a Real”).
“Backrooms: Um Não-Lugar” é um filme baseado no fenômeno viral da internet sobre os misteriosos “Backrooms”. A trama acompanha Clark (Ejiofor), um vendedor de móveis que encontra um espaço estranho e labiríntico escondido no porão de sua loja. Porém, quando Clark desaparece, sua terapeuta, Dra. Mary Kline (Reinsve) entra no labirinto em busca de respostas, e acaba presa nesse ambiente tão enigmático quanto perturbador.
A Alpha teve o privilégio de assistir ao longa em primeira mão, a convite da Imagem Filmes, e te conta tudo sobre o que esperar da nova produção da A24!
Entenda as “backrooms”
As Backrooms surgiram em 2019 como uma creepypasta — uma lenda urbana de terror na internet — publicada anonimamente no fórum 4chan. O conceito nasceu a partir de uma foto de um espaço comercial vazio, com carpete molhado, iluminação fluorescente intensa e paredes amarelas. A fotografia apareceu em um tópico do fórum /x/, dedicado ao paranormal, em que usuários compartilhavam imagens que causavam inquietação.
Foi nesse contexto que um usuário anônimo publicou a primeira descrição das Backrooms, definindo-as como uma dimensão alternativa acessada quando alguém “desliza para fora da realidade”. Segundo a descrição original, quem cai nesse lugar se vê preso em um labirinto interminável de salas vazias, dominadas pelo cheiro de carpete úmido, luzes zumbindo sem parar e uma atmosfera sufocante de monotonia amarelada. A ameaça, no entanto, não vinha apenas do espaço em si: a mensagem terminava com um aviso perturbador de que algo poderia estar vagando por ali — e, caso você o escutasse, ele certamente já teria escutado você.

O universo ganhou ainda mais força em janeiro de 2022, quando o então adolescente norte-americano Kane Parsons, conhecido online como Kane Pixels, publicou no YouTube o curta “The Backrooms (Found Footage)”. O vídeo simulava uma fita VHS dos anos 1990, mostrando um cinegrafista acidentalmente entrando nas Backrooms enquanto era perseguido por uma criatura desconhecida.
Parsons expandiu o conceito para uma série interligada de curtas, introduzindo novos elementos narrativos, como a Async — uma organização fictícia que teria aberto um portal para as Backrooms nos anos 1980 e conduzido experimentos dentro do local. Agora, esse universo deve ganhar ainda mais alcance com “Backrooms: Um Não-Lugar“, adaptação cinematográfica inspirada nos curtas de Kane Parsons e dirigida pelo próprio.
Como transformar um mito digital em cinema?
Com apenas 20 anos, Parsons estreia como diretor diante da árdua tarefa de traduzir para o cinema de massas um universo nichado e desprovido de congruências lógicas. Seu maior triunfo, então, é manter-se fiel à natureza desorientadora da história, sem se render aos clichês do horror mainstream.
Como diretor, Kane entrega uma obra de terror surrealista — aqui, com literalidade no conceito do movimento que rejeita o racionalismo e busca libertar o inconsciente e os sonhos — sem tentar explicar o inexplicável. Faz isso por meio de uma visão criativa e técnica consistente, carregando, como muito bem apontou o jornalista Dan Jolin, referências aos gigantes do gênero, do atmosferismo de David Lynch ao horror corporal de David Cronenberg.
Mais do que isso, “Backrooms” é um filme de terror construído de forma tênue, apoiado na atmosfera, na desorientação e no storytelling. Não espere jumpscares: a tensão se estabelece justamente no intangível. Isso se evidencia, especialmente, no trabalho cênico da norueguesa Renate Reinsve, que se distancia das scream queens tradicionais do horror e tenta manter o controle intelectual de sua personagem, uma psiquiatra, o que adiciona ainda mais camadas à sua narrativa — embora esta não figure entre as atuações emocionalmente mais impactantes da atriz, célebre por trabalhos como “Valor Sentimental” e “A Pior Pessoa do Mundo”, ambos de Joachim Trier.
E, por mais que existam subtramas — como o casamento falido de Clark e o trauma familiar de Mary —, elas pouco aprofundam a superfície narrativa. Funcionam, sobretudo, como espaço para interpretações mais complexas sobre a existência das backrooms e o lugar onde o ser humano compartimentaliza seu próprio existencialismo. Leituras essas que também podem suscitar uma reflexão: a ideia do ilimitado, capaz de transformar e deformar a existência humana, não seria também um comentário sobre a evolução tecnológica e o uso da inteligência artificial?
Assista ao trailer de “Backrooms: Um Não-Lugar”


