Natal Amargo: a arte de imitar a vida (e vice-versa), segundo Almodóvar

Um dos mais célebres diretores europeus da contemporaneidade, o espanhol Pedro Almodóvar estreou seu novo filme, “Natal Amargo”, no último dia 20 de maio, no tradicional Festival de Cannes, onde recebeu quase sete minutos de aplausos, segundo a Variety. O momento remete à primeira vez em que o cineasta apresentou um longa no festival, em 1999, com “Tudo Sobre Minha Mãe”, obra que se tornou um dos maiores sucessos de sua carreira e lhe rendeu o Oscar de Melhor Filme Internacional. 

O novo trabalho também marca o retorno de Almodóvar à língua espanhola após sua incursão no cinema em inglês com “O Quarto ao Lado”, estrelado por Tilda Swinton e Julianne Moore, lançado em 2024.

“Natal Amargo” é estrelado por Bárbara Lennie, Leonardo Sbaraglia, Aitana Sánchez-Gijón,  Victoria Luengo, Patrick Criado, Milena Smit e Quim Gutiérrez

Mas, após 46 anos à frente de uma filmografia que o transformou em um dos nomes mais reconhecidos do cinema mundial, o novo longa de Almodóvar revela um momento de liberdade criativa e narrativa. A Alpha teve o privilégio de assistir ao filme em sua pré-estreia, na Cinemateca Brasileira, e conta o que esperar deste novo capítulo da trajetória do cineasta espanhol!

O que esperar de “Natal Amargo”?

O longa se desenrola em duas linhas temporais que se conectam de maneira reflexiva. 

No presente, em 2026, o diretor e roteirista de cinema Raul atravessa uma crise criativa e passa a transformar em material artístico as experiências e relações ao seu redor. A partir desse processo, nasce uma segunda narrativa, situada em 2004: nela, Elsa, uma publicitária que também escreve um roteiro de cinema, embarca rumo à ilha de Lanzarote ao lado da amiga Patricia, pouco depois de enfrentar a perda da mãe. 

A maior parte de “Natal Amargo” se desenrola sem um fio narrativo claro, isto é, sem um cerne temático. O filme se desenvolve de maneira mais contida do que o habitual na filmografia de Almodóvar, deixando em segundo plano parte da intensidade emocional e estética que costuma marcar suas obras. Ainda assim, o diretor preserva sua assinatura em um humor seco e sutil. A trilha sonora de Alberto Iglesias, colaborador frequente do cineasta, reforça essa atmosfera com delicadeza, ao dialogar de forma sensível com o legado musical de Chavela Vargas

A grande virada narrativa acontece no desfecho, quando o filme escancara sua índole profundamente pessoal. Raul surge como um alter ego evidente de Pedro Almodóvar, transformando a trama em um retrato quase confessional do cineasta. É nesse momento que a obra ganha outra dimensão, ao mergulhar de forma direta no debate sobre os limites éticos da liberdade artística — aquilo que o diretor chama de “autoficção” — e em um embate íntimo entre ego, memória e autocrítica.

“Natal Amago” mostra-se um filme sobre a natureza da arte que imita a vida que, no fim, imita a arte. Então, entende-se também o porquê da aparente falta inicial de um “cerne temático”, como se a última hora e meia de filme fosse uma piada que leva um pouco mais de tempo do que o esperado para revelar sua graça, mas que, para quem gosta do diretor, faz a espera valer a pena.

“… Fui mais cruel comigo mesmo. Eu estava observando meu próprio processo criativo e fazendo perguntas sobre inspiração… Eu me diverti um pouco fazendo isso”, diz Almodóvar ao Los Angeles Times.

Assista ao trailer de “Natal Amargo”

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